Sexta-feira, Setembro 16, 2011

Ainda não.

Hoje é um daqueles dias em que eu poderia começar esse texto fazendo um imenso drama. Mas não é isso o que vou fazer, embora possa parecer. Hoje eu escrevo com uma frieza tão crua, tão mesquinha, que sinto até um pouquinho de dó do meu coração desaprendido de sofrer rasgado. Hoje eu poderia escrever tanta coisa, mas sinceramente quase nem começo esse texto por medo. Medo de falar demais, medo do que possa sair de dentro pra fora e do que as pessoas possam interpretar de fora pra dentro. Por medo de querer que este seja um texto frio e definitivo sobre determinado e no final ele venha a ficar piegas e venha a ser só mais um dos montes que eu vá escrever pra aplacar a dor. Pra deixar constando. Mas mesmo assim escrevo, escrevo porque essa letra é meu grito sem som. Escrevo porque no final das contas escrever é tudo o que sempre me restou depois de olhar o mundo e sentir seu gosto na ponta da língua, e sentir seu desgosto na ponta do peito: escrever. Esse grito silente vem com cor de ensurdecedor.

Eu poderia também escrever aqui um texto enorme ressaltando todas as minhas qualidades, mas acredito que o que é preciso saber já está sabido. Acredito que as minhas qualidades você já saiba todas apesar de todos os defeitos que você já conhece de cor, salteado e de trás pra frente. Talvez seja mais conveniente até falar dos defeitos, aqueles sem os quais o edifício desmorona, vira pó. Mas também não vou falar disso pois apesar da insegurança e do meu humor ferino e negro eu estou louca pra me perguntar se alguém sabe me responder a pergunta que eu já tenho a resposta. Eu estou louca pra dizer que eu entendo de uma forma completamente ignorante a forma como sou imensamente capaz de fazer alguém me amar por nada, e da mesma forma desamar. Por nada? Por tudo? Vai saber.

Hoje eu acordei cedo e comi bolachas de água e sal com manteiga deitada na rede de casa, e olhando as bitucas, copos, vidros, garrafas d’água espalhados pela casa eu fiquei pensando Meu Deus quanta mudança, estou perdida. Eu fiquei pensando em todas as minhas certezas guardadas na prateleira que o vento que entrou pela janela veio e derrubou sem dó. Agora eu as cato, todas bagunçadas, espalhadas pela casa no meio das bitucas e copos. Eu fiquei pensando que há um mês atrás eu andava chorando por medo de mudar e agora estou aqui: tudo mudado, nada nas mãos a não ser essa sensação de poder fazer o que bem entender com o tempo e com a vida. Argila fresquinha, eu vou moldando. Um dia já quis voltar atrás, mas não reclamo. Tenho a sorte dos desassossegados em busca do fio da alegria que entra cortante e agudo no peito. A alegria, só essa é perfeita.

Sabe, eu queria tanto dizer tanta coisa pra te convencer, eu poderia dizer que estou com raiva, mas a bem da verdade eu não estou e sei que eu não posso obrigar ninguém a me amar, nem a gostar de mim, por mais que esse alguém seja você. Rs. Acho que a única coisa que eu gostaria de falar pra deixar bem claro é que eu estou tão confusa e não sei o que fazer. A nossa vida (o nosso nós) já está tão marcado pelos nossos erros, e eu estou com tanto medo de um último erro fatal que nem sei o que faço: se fico pra ver a luta ou se apenas espero o resultado. Qual seria o mais egoísta? Abandonar o barco agora que tudo se complicou ou tentar brigar por uma coisa que não se briga e pedir uma coisa que não se pede? Amor é só uma entrega gratuita então eu fico pensando que se alguém tiver de me amar ou de confiar de novo em mim vai ser por aquela forma que eu já disse lá em cima. Vai acontecer. Não preciso dizer mais nada pra poder provar mais uma vez algo que eu provo todos os a cada dia, através desse meu amor, que, apesar de toda mudança, de toda incerteza, toda tristeza, todo ia, todo não ia, não abandonou o barco.



Ainda não.

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